fbpx

* Por Daiane Andognini, fundadora da HUG, Consultoria de Gestão de Pessoas especialista em startups em crescimento

Diferentemente do mercado tradicional, as startups levam em seu DNA uma agilidade nata. São empreendimentos que surgem de ideias às vezes muito simples, que resolvem um problema real da sociedade com mais rapidez e menor custo. Pessoas que se empenham em mudar o mundo, mesmo sem contar com grandes estruturas físicas ou apoio financeiro. Muitas dessas ideias abrem caminho para grandes inovações, o que dá a essas pequenas empresas um enorme potencial de crescimento. E o caminho entre essas duas pontas passa por uma ideia clara do negócio, pela cultura e, principalmente, por uma equipe engajada e focada em fazer a empresa prosperar.

Por isso, a área de gestão de pessoas tem papel fundamental no crescimento das startups. São, afinal, os líderes e colaboradores que colocarão a ideia em prática: a tecnologia, por si só, não resolverá todos os problemas. Segundo um estudo do CBInsight, a terceira maior causa de fechamento das startups é a falta de um time certo. Além disso, um dos pontos mais avaliados pelos investidores durante um pitch é a capacidade que a startup vai ter de escalar o crescimento da sua equipe – e não só o produto ou serviço que oferece.

Para saber se é o momento de pensar em estruturar essa área na empresa, é essencial estar atento aos sinais que vêm da equipe. Eles podem começar sutis, mas se intensificam à medida que o time aumenta. No começo, as startups são pequenas e as pessoas estão mais próximas – mesmo em home office. Com o crescimento, a equipe vai ficando sobrecarregada, começam os problemas na comunicação e as dificuldades para atrair os talentos certos.

Assim, a estratégia de pessoas das startups deve estar vinculada ao objetivo do negócio que está no seu plano de crescimento. As startups em fase de tração e scale up estão nos momentos mais intensos da jornada de crescimento. É nessa fase, geralmente, que elas costumam pensar em gestão de pessoas date driven, seja em relação ao plano estratégico, no recrutamento ou nos programas de total rewards. Por isso, se a ideia da implementação desse RH já estiver prevista de maneira clara, mais tranquilo e eficaz será o crescimento.

Isso é importante principalmente se o empreendedor já estiver programando a próxima rodada de investimento. Afinal, é bem provável que nesse ciclo a startup cresça e ele precise cuidar melhor da gestão de pessoas – o time ficará maior, o alinhamento da comunicação já não será tão fácil e simples como antes, ao mesmo tempo em que as lideranças precisarão de apoio e desenvolvimento, o que acarreta uma sobrecarga de atribuições ao CEO, quando se espera que ele esteja cada vez mais focado no seu papel.

Para cada momento da startup, o impacto da área de pessoas será diferente. Quando ela recebe aportes de investimentos de fundos de venture capital, por exemplo, isso demonstra um potencial maior ainda de sucesso daquele negócio. Quanto maior fica a empresa, mais estratégica passa a ser a função do RH, para garantir que todas as pessoas entendam para onde o negócio vai e qual o seu papel nessa jornada. Nos nossos benchmarks, em média, existe uma pessoa de RH para cada 30 funcionários da startup. Por isso, acreditamos que é importante começar com alguém e, logo em seguida, planejar o crescimento dessa estrutura. Se a empresa conseguir ser preditiva sobre sua área de gestão de pessoas quando ainda conta com apenas 10 pessoas, ainda melhor.

Mas isso não quer dizer que uma empresa que já tenha passado esse número não terá sucesso nessa estruturação. Um dos cases da HUG foi o projeto na MaxMilhas. Quando começamos, a empresa já contava com quase 100 colaboradores. Adotamos, então, uma estratégia mais robusta para estruturar o time de pessoas, o que incluiu a contratação de um Gerente Sênior mais 3 business partners. Essa equipe foi crescendo organicamente à medida que o negócio avançava, levando a empresa a triplicar o número de funcionários.

Ou seja, a estruturação da área de gestão de pessoas não deve levar em conta apenas o momento atual, as dores atuais, mas o plano de crescimento da startup. Esse time terá papel importante em várias áreas da empresa, em especial na atração de novos talentos. A disputa por bons profissionais na área de tecnologia, como desenvolvedores full stack, engenheiros de dados, data Science, entre outros, é altíssima, principalmente no Brasil. Com uma estrutura consolidada, o RH pode ajudar a empresa a atrair os melhores profissionais. Ele pode, por exemplo, criar uma cultura de dados no recrutamento e construir uma “máquina” de aquisição de talentos. Com isso, a empresa se tornará mais assertiva e rápida nas contratações.

Outro ponto que a gestão de pessoas pode atuar com êxito são questões relacionadas com suas lideranças: o crescimento da empresa nem sempre é acompanhado pelo desenvolvimento das competências exigidas de seus líderes nessa nova fase. Da mesma forma, começam a aparecer os desalinhamentos com a cultura. É comum, por exemplo, os founders começarem a perceber alguns comportamentos que destoam do que se espera das pessoas, assim como problemas com a comunicação, que nem sempre chega a todas as áreas e/ou da maneira ideal.

Nesse sentido, o RH contribui para a empresa, por exemplo, criando uma jornada do colaborador – employee experience -, fundamentado na cultura e nos objetivos do negócio, alinhando as expectativas do colaborador desde o recrutamento até o último dia dele na empresa. Essa perspectiva clara do que a empresa é, sua cultura e o que se espera e se oferece ao colaborador contribuem para atrair os melhores talentos do mercado para integrar o time da sua startup. A pergunta, então, é: qual é o time ideal de gestão de pessoas que vai garantir que o meu negócio escale e tenha sucesso?

Mesmo os empreendedores que conseguem identificar facilmente suas dores e quando precisarão de um RH encontram dificuldades em escalar esse time e em estabelecer a priorização das atividades que vão garantir o crescimento. Nosso trabalho como consultoria, nesse caso, é entender o tamanho do desafio que o empreendedor tem pela frente e, a partir disso, construir uma cultura de gestão de pessoas que vai escalar. Dessa maneira, percebemos que o empreendedor consegue se sentir seguro em relação às decisões tomadas e ter mais foco para se dedicar às atividades de estratégia e execução do negócio.

De acordo com os dados internos da HUG, cerca de 90% das startups que apoiamos na construção da área de gestão de pessoas conseguiram atingir seus percentuais de crescimento previstos, adquiriram mais liquidez ou mesmo se mantiveram competitivas diante da pandemia. A tecnologia é a pedra angular das startups, mas ela precisa criar a conexão entre as expectativas das pessoas e o propósito da empresa. E criar desde cedo uma estrutura de Gestão de Pessoas vai ajudar para que essa conexão se mantenha forte e conduza todo o time pelo caminho do sucesso.